O projeto Parklet Vaga da Cidade nasce como um sistema modular pensado para substituir vagas antes destinadas a carros por parklets, oferecendo à população uma nova forma de usufruir do espaço urbano. A proposta busca transformar o que antes era um espaço privado — ocupado por um veículo individual — em um espaço público de convivência e permanência. Para isso, utilizamos andaimes metálicos multidirecionais como núcleo estrutural do projeto. Essa escolha se dá por se tratar de uma solução acessível, resistente, de fácil montagem e desmontagem, além de adaptável a diferentes topografias, como as de Belo Horizonte, já que os andaimes permitem regulagem de altura durante a montagem. Com uma abordagem sistêmica como norteadora de todo o projeto, é possível montar diversas plataformas urbanas voltadas ao convívio, partindo sempre do módulo correspondente a uma vaga padrão (2,5 m x 5 m), que se transforma em dois módulos estruturais de 2,5 m x 2,5 m, dando toda a ordem ao parklet. O sistema parte do pré-entendimento e respeito às condicionantes únicas de cada local. Entende Belo Horizonte como uma cidade plural e diversa, foram considerados três eixos norteadores: a topografia, a disponibilidade de vagas e as dinâmicas urbanas demandas e/ou pré-existentes. De acordo com a topografia do terreno, o sistema permite a utilização de rampas e escadarias para o acesso dos usuários e a conexão contínua com a rua, com módulos que podem ser replicados de acordo com a quantidade de vagas. Já as dinâmicas urbanas se mostram fundamentais para a composição do programa de cada parklet. Dessa forma, não se propõe apenas um único projeto a ser replicado em massa, mas um sistema que se adapta e apresenta alternativas adequadas a cada necessidade local. Por exemplo, conforme os diagramas abaixo, se consideraram 8 dinâmicas urbanas mais norteadoras. Foram utilizados, assim, a orientação de verbos para guiar o programa e facilitar os usos. Para exemplificar o funcionamento do sistema, em um bairro boêmio como a Savassi, são utilizados assentos confortáveis e mesas para comer e beber em companhia. Também foram pensados casos para locais em que a cultura de rua é muito presente, onde são pensadas rampas e escadarias com corrimãos adequados para a prática de esportes como skate ou bicicleta. Para bairros com carência de equipamentos voltados para o público infantil (e espaço para tal), foram pensados brinquedos seguros para crianças, como trepa-trepa e balanços. Ainda, foram pensadas para bairros com fortes comunidades a opção de módulos para feira e hortas comunitárias, que supririam necessidades de plantar, colher, vender e comprar, em escala local e coletiva. Por último, também são propostos módulos culturais que teriam incentivos à leitura e forneceriam locais de encontro para aprendizado ou apresentações, contribuido para o acesso à cultura. Ainda, é necessário compreender que nem estes exemplos são módulos fixos, mas estudos em desenvolvimento e experimentação, que deveriam sofrer alterações conforme as necessidades específicas de cada local, podendo inclusive combinar diferentes elementos destas categorias ou criar novas. Por exemplo, em uma rua, com pouca arborização, o módulo poderia incluir redes de descanso, sombreamento com plantas trepadeiras e bebedouro. Já em frente a um bar ou restaurante, o parklet pode receber bancos, mesas, iluminação, sombrites e lixeiras, configurando um espaço dinâmico e adaptável às demandas de cada contexto urbano.
Os elementos do parklet foram projetados para se integrar de forma direta à estrutura dos andaimes. Assim, luminárias, lixeiras, bancos, mesas e jardineiras são desenhados com sistemas de fixação que se ajustam aos tubos circulares de 43 mm de diâmetro do andaime, garantindo modularidade e flexibilidade na montagem. Dessa forma, o parklet pode ser configurado em diversas composições, permitindo que a própria comunidade participe ativamente da definição do mobiliário escolhendo como o espaço será utilizado e quais elementos o comporão. Para este estudo de caso, foi proposto um parklet para as particularidades da Rua Mármore, no tradicional bairro Santa Tereza. A intenção é entender como as condicionantes do local influenciam no programa de necessidades. Dessa forma, a proposta utiliza dois módulos de andaime para criar um espaço de convivência integrado à atmosfera boêmia local, convidando à permanência e ao encontro. O conjunto é composto por bancos, mesas, rede de balanço, jardineiras, iluminação e uma pequena arquibancada, configurando um ambiente aberto, versátil e em diálogo com a vitalidade das ruas de Santa Tereza.
O trabalho foi desenvolvido a partir dos princípios do urbanismo tático, uma abordagem que propõe intervenções urbanas localizadas, de pequena escala e voltadas à participação direta da comunidade. Trata-se de um urbanismo feito ao nível dos olhos, que valoriza a observação cotidiana e o envolvimento dos moradores no processo de transformação do espaço. Adotamos especialmente o conceito de projeto-protótipo, característico do urbanismo tático. Nesse modelo, o projeto é implantado como uma experiência temporária, um teste que permite avaliar as reações e apropriações da população. Caso a proposta funcione e gere identificação, ela pode evoluir para uma intervenção mais permanente, consolidando-se no território, caso contrário, a proposta pode ser remontada em outro lugar da cidade.
Nosso projeto se situa exatamente nessa fronteira entre o provisório e o permanente. O uso dos andaimes metálicos reforça essa ideia: estruturas que podem ser desmontadas, transportadas e remontadas em novos contextos, acompanhando as dinâmicas da cidade. Além disso, elementos como a substituição dos sombrites por espécies trepadeiras, como o cipó-de-são-joão, e a instalação de mobiliários desenhados para se encaixar à estrutura dos andaimes, expressam esse movimento gradual entre o efêmero e o duradouro, entre a experimentação e a consolidação do espaço urbano. Ainda, por último, se enfatiza o caratér prático e concreto do projeto, evidenciado pelas etapas de montagem determinadas de forma rápida, precisa e adaptável quando necessário.